
Relacionar-se é uma aventura, fonte de alegria e risco de desgosto. Na relação defrontam-se personalidades, dialogam neuroses, esgrimem sonhos e reina o desejo de manipular disfarçado de delicadeza, necessidade ou até carinho. Difícil? Difícil sem dúvida, mas sem essa viagem emocional a existência é um deserto sem miragens.
Amar é não-ter.Parece pessimista. Mas não-ter não é o mesmo que perder. Não-ter quando se trata de amar é sinônimo de liberdade. Só é possível quando se permite aos habitantes do grande oceano aproximar-se da margem, sentir o cheiro da terra firme, longe das profundidades oceânicas que encobrem o chão.
Difícil tarefa abandonar as expectativas que unem os casais. Sempre temos pareceres na alma e no corpo quanto ao outro. É uma briga feia e se formam ondas gigantescas às vezes. Bem sabemos que o mar só recobra sua paz quando as ondas se vão, se desfazem sem muito alarde, no acaso. Logo, tudo passa, se o mar espera o retorno do que é seu, a calmaria, a posse de si.
Guardai dentro de si, a flor mais bela que possas imaginar, sentir, tocar, fazê-la real. E voltai o olhar, tato, olfato, audição, paladar para a beleza dela quando o outro for acometido pelo demônio da posse, da satisfação egoísta, da redução a objeto prensado nos interesses conscientes e inconscientes. Pois um braço de rio só vence a solidão e a quase desaparição com a flor - o imenso mar - que vive dentro dele a priori quando se põe a rememorá-lo ardentemente. Trazer a flor à margem só em casos de urgência, pois o amor é um jardim perene.
Jardim perene. Quando não se quer ter o outro, todo dia nascem flores nos gravetos do cotidiano. Por isso, o amor é um vigilante. Deve render-se ao outro diariamente. Mas não se preocupem, quando é amor, isso é tão natural que até em tempos quentes, ao meio dia, flores surgem para embelezar o dia escaldante.
Padre José Ricardo
“Se a gente não der amor,
o amor apodrece em nós.”
— Manoel de Barros